Cleyton Cabral

Dia dos Pais
by Cleyton Cabral

Meu pai morreu quando eu tinha vinte anos. Uma parte de mim que já não está. Tantos anos que não ouço sua voz.

Dizem que sou meu pai cagado e cuspido. A mesma cara. O mesmo corpo. O humor e o sarcasmo, iguaizinhos. “Tu é Cabral todinho!”, dizem.

Meu pai separou da minha mãe quando eu era pequeno. Aos nove anos eu não sabia o que era saudade e já começava a colecioná-la. Eu adorava minha camisa do Snoop, minhas botinhas ortopédicas, pular poças d’água na chuva segurando as mãos de painho e de mainha. Ainda me lembro do último passeio: painho me abraçou bem forte escondendo a chuva dentro dos olhos. Mas eu vi tudinho com meus olhos de guarda-chuva.

Quando ele vinha me visitar, sempre me levava na loja de brinquedos. Tomávamos guaraná Antárctica. A vida de canudinho. Eu fotografava com os olhos cada detalhe: o cabelo castanho escuro repartido na lateral, as sardas, as roupas modernas e coloridas, a mão que ficou paralisada por uma mordida de gato. Para não esquecer.

Numa dessas visitas ele me trouxe uma fita K7 com a gravação de um programa de rádio que apresentava no Piauí. Por algum motivo – que não sei explicar – nunca coloquei no toca-fitas. Guardei-a tão bem guardada que não sabia mais do seu paradeiro.

Quando eu era criança chorava e via as luzes se desmanchando. Eu pensava que toda vez que eu chorava as pessoas também viam as coisas neblinadas. Isso me dava um sentimento de culpa. Perguntei: Painho, por que as pessoas derretem quando eu choro?

Você só vê as coisas diferente, ele disse me abraçando.

Há um ano revirei todas as minhas caixas, o guarda-roupa, as gavetas. Adivinha o que achei? A fita K7.
“Manhã da MPB com Cabral Brasil… Zil zil… Show! É isso aê… eita lá! Vou dançar isso lá no Ré-cife, visse? Eu vou dançar… lá no Ré-cife… visse? É… chegar lá, vou dançar isso aê… vou chamar meu amigo Ramo… Ramo Cavalcante… Raminho… Silvana… acorda menino, que daqui a pouco eu chego aí a qualquer momento… vou arrochar o buriti… é… é vou chegar lá… vou dançar… só forró pernambucano… eita, caba macho, vai ver o que é bom… agora vou jogar uma musiquinha aí pra meu amigo Sebastião… Sebastião Farias… é… aquela turma… ali da… ali pertinho no centro de Santa Filomena e adjacências… e outra coisa… e pro povo de Alto Parnaíba também, tá? Seis horas e vinte cinco minutos na… FM 100.5 megahertz… eita, Parnaíba arrochado!… nota dez!”

Meu pai era um megafone. Eu era um documento de Word em branco. Agora, eu sou um livro.

Um brinde! Painho, te amo!

Cleyton.

Leave a reply